domingo, 23 de setembro de 2012

A imprensa apartidária e o leitor idiota

O episódio da semana passada com a tal fita da VEJA é uma oportunidade de reflexão sobre os partidarismos na imprensa. Isso não seria problema nenhum, já que notícias são feitas por pessoas e pessoas têm pontos de vista e interesses diferentes. E as organizações também. Mas o que parece é que existe uma tentativa velada de omitir esses partidarismos. Isso acontece mais nitidamente nas TVs, mas até as revistas, jornais e blogs parecem não querer entrar nesse mérito. O problema é que essa omissão é um dos grandes motivos que torna as pessoas cada vez mais alienadas (palavra desgastada, mas elucidativa). Isso é proposital, pra não dizer histórico, evidentemente, mas é preciso combater essa hipocrisia que existe nos meios de comunicação, porque, até para nós, que procuramos não sermos alienados, ficamos reféns de situações que fazem nos sentir como verdadeiros idiotas.

Nesse exemplo da semana passada, a revista VEJA nitidamente atacou Lula de novo, desta vez usando como artifício supostas declarações de um homem já condenado pela Justiça pelos crimes de desvio de recursos públicos (corrupção ativa e peculato) e lavagem de dinheiro, faltando ainda ser julgado por evasão de divisas e formação de quadrilha. O que impressiona na reportagem (inclusive em outras edições) é que, mesmo com as condenações, ele seja colocado como um "salvador da pátria" nesse episódio do Mensalão. Mas algumas coisas interessantes começaram a acontecer na semana.

A reportagem, como era de se esperar, causou muita euforia na imprensa, que logo foi atrás do advogado de Valério, Marcelo Leonardo, para saber mais detalhes sobre as supostas declarações. Também a oposição, de forma nada surpreendente, entrou na euforia da imprensa, querendo que Lula também fosse julgado. Mas tudo isso foi muito mais breve do que eles imaginavam, porque logo o advogado de Valério negou tudo. Disse para O Globo que "desde 2005 Marcos Valério não dá entrevistas e não deu nenhuma entrevista para a Revista VEJA agora". E também que "ele nega o teor das declarações atribuídas a ele".

O advogado de José Dirceu, José Luís Oliveira Lima, deu a seguinte declaração sobre o caso na mesma reportagem de O Globo:

- Acho muito estranho que na véspera de iniciar o julgamento contra o meu cliente, e também na véspera do primeiro turno (das eleições), a revista venha com uma matéria desprovida de fatos concretos, de provas e documentos — afirmou o advogado, que minimizou a hipótese de o artigo influenciar no julgamento. — Fico tranquilo quando lembro que meu cliente está sendo julgado pelo STF, composto pelos magistrados mais experientes do país, portanto vacinados para qualquer tipo de pressão.

Bom, os ministros realmente ignoraram as supostas acusações contra Lula. 

A VEJA declarou primeiramente que não houve entrevista com Valério e que, na verdade, a reportagem estava embasada em declarações de parentes e amigos (talvez esse tenha sido o estopim da possível separação de Valério e sua esposa, Renilda). No entanto, voltaram atrás e disseram que havia sim uma entrevista com Marcos Valério, gravada inclusive. Então, várias pessoas começaram a pressionar a VEJA para soltar a tal fita com a gravação das declarações de Marcos Valério sobre Lula para atestar a informação, sugestão vinda também de José Serra. O jornalista Ricardo Noblat chegou a divulgar em seu Twitter que a VEJA iria divulgar a fita. 

Mas logo, veio a notícia: a VEJA decidiu não divulgar a tal fita com a entrevista, numa decisão que causou revolta até em seus correligionários. 

O que fica para nós, reles leitores e consumidores de notícias, é que estamos reféns delas e de seus meios. E a grande maioria das pessoas ainda é obrigada a acreditar que os meios de comunicação são apartidários. Esse é um dos maiores mitos que somos obrigados a engolir. A verdade é que a imprensa deveria cumprir sua real função social, que é simplesmente a de informar fatos reais. Infelizmente, a função social da imprensa tem sido a de ser comercial e a atender interesses estranhos à maioria. Se for assim, que seja, mas um pouco de honestidade não faz mal a ninguém. Ora, por isso que dizer que existe uma tentativa dos meios de comunicação serem suprapartidários, é aceitável. Mas tentar passar a imagem de serem apartidários, é fazer o leitor de idiota.