sábado, 19 de janeiro de 2013

Programa Ciência sem Fronteiras só para área de exatas: certo ou errado?

Algo para refletir (e se preocupar).

Enquanto os EUA sofriam a duras penas com os efeitos da crise de 2008, o então presidente Lula disse:

"Crise é tsunami nos EUA e, se chegar ao Brasil, será 'marolinha' que não dá nem para esquiar". Ainda em 2008 disse: "Você, meu amigo e minha amiga, não tenha medo de consumir com responsabilidade. Se você está com dívidas, procure antes equilibrar seu orçamento. Mas, se tem um dinheirinho no bolso ou recebeu o décimo terceiro, e está querendo comprar uma geladeira, um fogão ou trocar de carro, não frustre seu sonho, com medo do futuro. Porque se você não comprar, o comércio não vende. E se a loja não vender, não fará novas encomendas à fábrica. E aí a fábrica produzirá menos e, a médio prazo, o seu emprego poderá estar em risco".  http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,MUL932658-5601,00-LULA+PEDE+QUE+BRASILEIROS+CONTINUEM+CONSUMINDO+COM+RESPONSABILIDADE.html 

Apesar do tom ameaçador, em 2009 o Le Monde anunciaria que Lula acertou:

"Ao prever com ironia um ano atrás que 'o tsunami' da crise provocaria em seu país uma simples 'marola', o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, acertou: a recessão só duraria um semestre. (...) A rápida recuperação do Brasil mostra como foi acertada a estratégia adotada pelo governo, com enfoque sobre o apoio do mercado interno. Reduções de impostos na indústria automobilística e de eletrodomésticos mantiveram as vendas nesses dois setores industriais cruciais".  http://acertodecontas.blog.br/economia/lula-acertou-ao-prever-%E2%80%9Cmarolinha%E2%80%9D-diz-le-monde/ 

E Lula terminou seu governo com altos índices de aprovação.

Agora, Dilma adota a mesma política. E, assim como Lula (mas com um tom mais sério! rsrs), de novo disse aos brasileiros para continuarem consumindo. http://www1.folha.uol.com.br/poder/956205-dilma-repete-lula-e-pede-a-brasileiros-que-nao-parem-de-consumir.shtml. 

E ela bate recordes de aprovação até de seu antecessor.

Pergunta: 

Quem está errado: o Governo do PT ou os brasileiros? Ou os dois?

Não acredito que o Governo do PT faça distinção entre as Ciências. Mas é evidente que existe uma prioridade no CsF. A prioridade é, no momento, qualificar profissionais aptos a darem continuidade aos projetos que o ex-presidente Lula iniciou, como a empreitada do Pré-Sal, desenvolvimento de regiões por séculos esquecidas ou sequer lembradas e andamento das obras do PAC (lembrando que há um Decreto da Presidenta estabelecendo cotas generosas a empresas nacionais nos empreendimentos). Para tudo isso, é necessário mão-de-obra qualificada e, nesses casos, composta, em sua maioria, de profissionais da área de exatas. Coisa que o Brasil é muito deficiente. 

No entanto, é inquestionável que ter uma sociedade que consome, mas não reflete sobre si (papel das Ciências Humanas), pode formar cidadãos acríticos, constantemente frustrados e bruscamente alienados. Isso sim é inquestionável. O questionável (e, quem sabe, preocupante) é saber se a política adotada pelo Governo do PT está errada.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

De "negra, pobre e favelada" a exemplo de mulher de luta

A Revista Veja a acusou de ter sido eleita tantas vezes só por causa do slogan “negra, pobre e favelada”. Um equívoco proposital da revista. Afinal de contas, isso não é mero um slogan. É uma realidade da mulher negra e de origem pobre das favelas cariocas: Benedita Sousa da Silva Sampaio, a Benedita da Silva.

Benedita nasceu no dia 11 de março de 1942 na favela da Praia do Pinto e, logo recém-nascida, mudou-se para o morro Chapéu da Mangueira. Muito pobre, em meio a 14 irmãos, precisava trabalhar para ajudar no sustento da família. Também sofreu tanto com a discriminação por ser negra e pobre que chegou a se odiar. Ela mesma conta que chegou a “tomar banho se raspando com telhas” e até “a colocar um pouco de água sanitária no banho para clarear a pele”. Também cresceu ouvindo que “ela precisava casar com branco para limpar a família”. Até que então, certa vez, uma menina branca, filha de uma de suas patroas, deitou-se ao lado dela. Aquela atitude simples Benedita descreveu como “mágica” (já que nem podia ir ao balanço do parquinho com outras crianças por ser pobre e negra) e finalmente sentiu “aquela coisa de igualdade”, que a despertou para as questões raciais. E concluiu: “Não! Eu vou à luta!”.


Na época da ditadura militar, Benedita e outras mulheres da comunidade se juntaram e criaram um departamento feminino na Associação dos Moradores do Chapéu Mangueira. Elas lutavam por melhores condições de vida na favela e questionavam as ações da polícia na comunidade. Aquela associação se articulou com o Centro da Mulher Brasileira, junto com mulheres da classe média do Rio de Janeiro.


Aos 40 anos de idade, formou-seem Serviço Social. Apartir daí, Benedita passaria a entrar para um rol de destaque raro entre mulheres negras na política. Em 1982, foi eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro pelo PT, a primeira negra a ocupar aquele cargo. Em 1986 foi eleita deputada federal, atuando como titular da Subcomissão dos Negros, das Populações Indígenas e das Minorias na Assembléia Nacional Constituinte, posteriormente passando à Comissão de Ordem Social e da Comissão de Direitos e Garantias do Homem e da Mulher. Em 1992, foi candidata à prefeitura do Rio de Janeiro. Ganhou no 1º turno, mas perdeu o 2º para César Maia, do PMDB. No entanto, em 1994, Benedita foi eleita a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado. Assumiu o cargo de vice-governadora do Rio de Janeiro na chapa de Anthony Garotinho em 1998. Com a renúncia de Garotinho em 2002 para disputar a presidência, Benedita da Silva tornou-se a primeira mulher, não somente negra, a ocupar o governo do estado, mas a única mulher negra a assumir esse tipo de cargo no Brasil. Também assumiu a Secretaria Especial da Assistência e Promoção Social, com status de Ministério, no governo Lula em 2003 e a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos no governo de Sérgio Cabral Filho em 2007. Atualmente, Benedita é deputada federal pelo Rio de Janeiro.


Apesar de todas as dificuldades, Benedita foi muito atuante na temática racial e das mulheres. Durante a reforma da Constituição, lutou para “inserir emendas ao texto constitucional sobre inafiançabilidade de crimes raciais, licença de 120 dias à gestante, direito das presidiárias de amamentar seus filhos, direitos das trabalhadoras domésticas, titulação das terras de quilombos, entre outras proposições”. Foi autora de importantes 84 projetos de lei como deputada federal. Como senadora, propôs “introdução do ensino da história da África no currículo escolar, demarcação das terras dos antigos quilombos, quotas de participação da imagem do negro nos meios de comunicação”, entre outros. É dela o projeto de lei que inscreveu Zumbi dos Palmares no panteão dos heróis nacionais, fazendo com que o dia 20 de novembro se tornasse o “Dia Nacional da Consciência Negra”.

  
Por tudo isso e muito mais, é injustificável atribuir a um mero slogan aos sucessivos êxitos de Benedita da Silva na carreira política. Mesmo sendo uma minoria, e, infelizmente, muitas vezes uma exceção, ela soube representar bem a grande maioria das mulheres brasileiras e suas realidades. Somente uma mulher como ela poderia ter a sensibilidade para compreender e lutar pelos direitos de quem passa despercebida por esses legisladores e “representantes do povo”, sem mencionar que isso acontece porque muitos são machistas, racistas e/ou elitizados. Para os mais críticos, as ações dela podem parecer insuficientes. E naturalmente são, porque a quantidade de mulheres com a mesma origem atuando nos legislativos também é insuficiente. Ora, Benedita precisou de pouca coisa para acreditar que ela tinha reais condições para lutar por justiça social. Mas hoje, podemos nos sentir privilegiadas por termos este exemplo vivo de motivação, no sentido de que qualquer uma de nós pode chegar aonde ela chegou e até fazer ainda mais, se quisermos. Quem é que não tem esse sonho como o dela? “Sonho com uma sociedade diferente, com justiça”.


Referências:


CÂMARA DOS DEPUTADOS. Biografia: Benedita da Silva. Disponível em:http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=103478. Acesso em 05/03/2012.


SEM FRONTEIRAS. Entrevista: Benedita da Silva. Disponível em:http://ospiti.peacelink.it/zumbi/news/semfro/sf234p05.html. Acesso em 05/03/2012.




CRIOLA. Negras da História: Benedita da Silva. Disponível em:http://www.criola.org.br/nnh/nnh_benedita_da_silva.htm. Acesso em 05/03/2012.


sábado, 1 de dezembro de 2012

Eles criticam o Bolsa Família há mais de 200 anos

“Essas ações tendem a piorar as condições gerais dos pobres. Há uma tendência óbvia [entre eles] em aumentar a população. E a falta de cuidado e da frugalidade predomina entre os pobres. Mesmo quando eles têm oportunidade de economizar, raramente o fazem. Pelo contrário, tudo o que ganham além de suas necessidades do momento é gasto, de modo geral, nos bares“.

Esse tipo de discurso é comum, mas não é recente. Essa paráfrase foi retirada de um trecho do Ensaio sobre o Princípio da População, de Thomas Malthus, escrito em 1798. O autor estava criticando a Lei dos Pobres, criada no fim do século XVI, que procurava enfrentar os problemas de pobreza e miséria que assolava a Inglaterra na época. É claro que era totalmente diferente dos programas sociais que conhecemos hoje, não só pelo momento histórico, como pela metodologia. (Por exemplo, nessa Lei, havia uma distinção entre pobres “com merecimento” e “sem merecimento” e também havia as “casas de correção” destinados a “vadios incorrigíveis”). De qualquer maneira, trata-se uma crítica a uma iniciativa de tentar mitigar a miséria e a pobreza.

Essas críticas eram comuns na época porque elas faziam parte de um acervo de teorias que procuravam dar embasamento ideológico aos capitalistas da época sobre como deveria ser utilizado o excedente econômico proveniente do trabalho da classe operária. Evidentemente, sabemos que eles não desejavam que esse excedente fosse distribuído ou incrementado à renda dos trabalhadores.

O objetivo desse post não é analisar aqueles discursos. No entanto, assim como aconteceu com a Lei dos Pobres há mais de 200 anos, ainda assistimos críticas parecidas como essa, direcionadas a políticas de distribuição de renda. Muito provavelmente com os mesmos objetivos de antigamente. Felizmente, com a intensificação da aplicação dessas políticas no Brasil, todas essas críticas têm caído por terra e obtido reconhecimento internacional por seus resultados e impactos na nossa sociedade e economia. Prova disso são os resultados positivos do Bolsa Família, por exemplo.

O programa foi lançado sob uma chuva de críticas e conclusões equivocadas, como a que iria “desencadear o que a gente chama de efeito preguiça“, como disse a própria Ministra do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Tereza Campello.

“O emprego, no Brasil, cresceu exatamente nas regiões onde a gente tem mais Bolsa Família. As pequenas cidades do Nordeste, em meio à população pobre, são exatamente onde mais se gerou emprego. Com isso, a gente consegue mostrar que o Bolsa Família não só não gerou efeito preguiça, como ele gerou um outro efeito ótimo para o país: ajudou na dinâmica nessas regiões pobres. À medida que a população tem dinheiro, esse dinheiro é injetado direto na economia e ajuda a desenvolver a região“.

Contradizendo os críticos atuais e o próprio Malthus, ainda segundo a Ministra, as famílias que recebem o benefício gastam principalmente com alimentação, medicamento, vestuário, material de limpeza e higiene. E ainda com pequenas melhoras nas condições da casa.

Outro aspecto importante que os críticos se “esquecem” de mencionar é o Pronatec do Brasil sem Miséria. Ele oferece mais de 340 tipos de cursos destinados à população do Bolsa Família. Atualmente, já existem mais de 220 mil pessoas inscritas. A probabilidade desse tipo de iniciativa ter um impacto positivo para o país é grande, pois metade da população do Bolsa Família tem menos de 18 anos. Isso quer dizer que esses jovens irão trabalhar em condições melhores que seus pais, não só por poderem concluir os ensinos Fundamental e Médio, mas também por possuírem o Profissionalizante. E ainda terem a oportunidade de irem para a Universidade, através do Enem ou Prouni.

Mais um dado positivo proveniente do Bolsa Família. Segundo o Censo Escolar 2010, a aprovação no Ensino Médio de alunos do Bolsa Família é de 80,8%, acima da média brasileira, que é de 75,1%. A evasão escolar das famílias do Bolsa Família também é menor em relação à média nacional:


Ensino Fundamental: 3% contra 3,5% em comparação com as taxas nacionais;


Ensino Médio: 7,2% contra 11,5% também comparando com as taxas nacionais.

Agora vamos colocar a nossa imaginação em prática. Existe um trecho do Ensaio, de Malthus, que se aplicaria bem aos clássicos discursos contrários ao Bolsa Família. VEJA bem o que ele poderia escrever em qualquer revista por aí:

“Suponhamos que, por uma concessão dos ricos, os 18 pence que um homem ganha hoje fossem aumentados para cinco shillings. Poder-se-ia imaginar, talvez, que eles então, poderiam viver com conforto e comer carne todos os dias, no jantar. Mas isso seria uma conclusão inteiramente falsa. O salário de cinco shillings por dia, em vez de 18 pence, faria com que todos se julgassem relativamente ricos e capazes de passar muitas horas ou dias sem trabalhar. Isso se refletiria de modo imediato e sensível na produção industrial e, em pouco tempo, não só a nação estaria mais pobre, como também as classes mais baixas estariam sofrendo muito mais do que quando recebiam apenas 18 pence por dia“.

Mas aí a nossa Ministra responderia assim:

“O Bolsa Família atingiu todos os seus objetivos, tudo o que a gente imaginava quando construiu o programa. Estamos conseguindo aliviar a pobreza da população, mas conseguimos muito mais do que isso: melhoramos a frequência e o desempenho das crianças em sala de aula, a situação das gestantes e o acompanhamento da saúde das crianças. Essa é a grande vitória, a grande conquista nesses anos. E a cada R$ 1,00 que a gente gasta no Bolsa Família retorna para a economia R$1,44, ou seja, o Bolsa Família acaba sendo um investimento do país“.

Compare os textos novamente. Incrível como estão mantendo o mesmo discurso por mais de 200 anos, não? o.O

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Textos retirados de:

- “História do Pensamento Econômico – Uma Perspectiva Crítica”, E. K. Hunt.

- “Em Questão – Edição 1650 de 05/11/2012″, editado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Dilma e o manual dos manipuladores

Encontrei um artigo publicado no dia 21/09/2011, pela nossa presidenta Dilma Rousseff, ao renomado Financial Times, em resposta às críticas do aumento do IPI aos carros importados. Mas o artigo superou as expectativas e não só respondeu às acusações de protecionismo, como se mostrou um manual para resolução dos problemas econômicos sofridos pelos países ricos. Mas até parece que eles vão ceder aos conselhos do país colonizado!

Mesmo assim, é interessante ler, tendo em mente os protestos na Europa contra as medidas de austeridade e a recente vitória do Presidente Obama nos EUA.
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Brasil irá lutar contra os manipuladores da moeda
Dilma Rousseff, Presidenta do Brasil

Estamos vivendo em dias turbulentos. A crise financeira de 2008 não acabou, especialmente nas economias avançadas. Com crescimento ainda fraco, esses países têm adotado políticas monetárias extremamente expansionistas ao invés de adotar uma maior combinação de estímulo monetário e fiscal. Economias emergentes estão sustentando o ritmo do crescimento, porém não podem assumir o papel das potências mundiais sozinhas.

Economias baseadas em reservas de moeda estão gerenciando a liquidez internacional sem um senso de bem coletivo. Estão recorrendo a taxas cambiais subvalorizadas para assegurarem sua participação nos mercados globais. Nesta onda unilateral, desvalorizações competitivas criam um círculo vicioso que conduzem ao protecionismo de mercado e de taxas cambiais. Isso tem trazido efeitos devastadores a todos, especialmente para os países em desenvolvimento.

O grande desafio para os próximos anos é tratar a dívida soberana e o desequilíbrio fiscal em alguns países, sem parar – ou reverter – a recuperação global.

Somente o crescimento econômico, baseado na distribuição de renda e inclusão social, podem garantir recursos para pagar a dívida pública e cortar déficits. A experiência da América Latina em épocas passadas mostram o quanto a recessão traz perdas de produção, aumento das desigualdades sociais e desemprego.

Se querem superar a crise, as maiores economias do mundo devem dar sinais claros de coesão política e coordenação macroeconômica. Não haverá recuperação ou crescimento confiante sem uma maior coordenação entre os países do Grupo dos 20. É vital – em particular para a Europa – que eles recuperem o espírito de cooperação e solidariedade mostrados no auge da crise.

É por isso que o Brasil apoia o crescimento forte, sustentável e equilibrado do Quadro do G20, que deve ser gerido por todos e para todos, sem exceções.

Outras iniciativas são necessárias no campo internacional: maior regulação do sistema financeiro, para minimizar a possibilidade de novas crises, e reduzir níveis de influência. Devemos proceder com uma reforma das instituições financeiras multilaterais, aumentando a participação dos países emergentes, que nesse momento têm uma responsabilidade primária no crescimento econômico global.

É urgente o combate ao protecionismo e todas as formas de manipulação da moeda, que dão uma competitividade espúria em detrimento de parceiros comerciais. O G20 pode oferecer uma resposta coordenada, em que grandes economias podem ajustar políticas fiscais, monetárias e/ou cambiais, sem o receio de agir sozinhos. Um sistema de mercado global aberto requer esse senso de confiança mútua.

Entretanto, ameaçados pelos amplos fluxos de capital especulativo, assim como pela rápida e insustentável valorização da moeda, países em desenvolvimento têm adotado um regime de taxas cambiais flutuantes, como o Brasil, sendo forçados a tomar medidas prudenciais para proteger suas economias e suas moedas nacionais. Não iremos sucumbir a pressões inflacionárias vindas de fora. Com firmeza e serenidade manteremos a inflação sob controle, sem abrir mão do crescimento econômico que é essencial para a promoção da inclusão social. Nosso comprometimento pelo desenvolvimento sustentável com estabilidade dos preços não é negociável e o fino ajuste da política econômica irá sempre trabalhar para esse objetivo.

Quanto às políticas de longo prazo, o Brasil recuperou a capacidade de planejamento em áreas como energia, transporte, habitação e saneamento, redefinindo o papel do Estado, com foco no desenvolvimento da infraestrutura social.

A descoberta de grandes reservas de petróleo no mar irá abrir um novo ciclo de industrialização, especialmente nos setores naval, petroquímico e bens de capital. Irá também possibilitar ao Brasil a criar um fundo especial para investir em políticas social, científica, tecnológica e cultural.

O país tem fortalecido empresas de controle estatal, como a Petrobrás, Eletrobrás e bancos públicos, para induzir o desenvolvimento. Através de ativos mecanismos de defesa comercial, suportados por regras da Organização Mundial do Comércio, não iremos permitir que a indústria seja prejudicada pela competição desleal.

O Brasil também está comprometido em combater o desmatamento, especialmente na Amazônia, promovendo agricultura sustentável e reforçar a matriz energética. Estou convencida da necessidade de consolidar essas realizações, assim como tenho certeza que todos nós a responsabilidade de suportar o re-equilíbrio da economia mundial. É tempo dos líderes mundiais agir com determinação e ousadia. Isso é o que o mundo espera de nós.

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Disponível em:
Para acessar o artigo em inglês, clique aqui.
Título original: “Brazil will fight back against the currency manipulators”.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Corrupção na FDE, um caso para investigar

por Alencar Santana Braga

Há quase um ano a Assembleia Legislativa, por meio da Bancada dos deputados estaduais do PT, tem usado das regras regimentais para exercer a prerrogativa constitucional de fiscalizar as ações do Poder Executivo e apurar as denúncias de irregularidades na Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE, como a fraude na licitação de mochilas escolares, nas obras de escolas públicas e na destruição de livros e apostilas didáticas, tudo operado por José Bernardo Ortiz, nomeado presidente da instituição pelo governador Geraldo Alckmin, em 2011. 

Em novembro do ano passado, após meses enfrentando a blindagem da base aliada do governador Alckmin, a Bancada petista conseguiu que a Comissão Permanente de Fiscalização e Controle fizesse a convocação de Bernardo Ortiz, para comparecer em 30 dias no Poder Legislativo paulista, para esclarecer as despesas com compra de mochilas e contratações para reforma das escolas e também elucidar os critérios sobre as quantidades e os gastos com livros adotados pela Secretaria Estadual de Educação. 

Desde então, a Bancada enfrenta uma batalha contra o bloqueio da base de sustentação do governador, com pedidos de CPIs, requerimentos de representação, convocação, além de acionar o Ministério Público Estadual com o protocolo de representações com as denúncias sobre a fraude na licitação das mochilas, que teve como alvo angariar recursos para bancar a campanha eleitoral do filho, Ortiz Filho, e a compra de livros didáticos em quantidade muito acima da demanda e a posterior destruição dos mesmos. 

O conluio das empresas fornecedoras das mochilas provocou o sobrepreço de aproximadamente R$ 11,5 milhões. O valor da comissão paga a Ortiz Junior, acusa a promotoria, foi de pelo menos R$ 1,74 milhão, correspondente a 5% sobre o desembolso total, segundo apuração do Ministério Público, que acatou a representação dos deputados petistas. 

A segunda representação do PT ao MPE que diz respeito a aquisição de apostilas em quantidade acima do necessário, e que gerou um prejuízo ao erário estadual de R$ 130 milhões, também foi acatada, mas ainda está em análise. 

Além de provocar o MPE e de convocar Ortiz, a Bancada requereu que a Assembleia Legislativa, por meio das Comissões de Fiscalização e Controle e Educação e Cultura, emitissem convite a Djalma da Silva Santos, empresário que contribuiu com o Ministério na apuração do esquema. 

Como se não bastasse todas essas irregularidades, A FDE, que conta com o orçamento anual de R$ 2,5 bilhões, também foi questionada nos relatórios do Tribunal de Contas do Estado nos exercícios de 2007 a 2011. A Fundação gastou cerca de R$ 8 bilhões sem que houvesse a necessária discriminação da finalidade e descrição do objetivo.

A má gestão dos tucanos é latente com o descaso na educação que reflete na qualidade do ensino público, desde a adoção da aprovação automática, que trouxe transtornos e resultados pífios nos sistemas de avaliação, sem falar na falta de respeito e estímulos para com os professores, até na ausência de lisura na aplicação dos recursos públicos. Os desvios para obtenção de favorecimentos que chegam à ilegalidade não podem deixar de ser investigados e punidos no rigor da lei.

* Alencar Santana Braga é líder da Bancada do PT na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

domingo, 23 de setembro de 2012

A imprensa apartidária e o leitor idiota

O episódio da semana passada com a tal fita da VEJA é uma oportunidade de reflexão sobre os partidarismos na imprensa. Isso não seria problema nenhum, já que notícias são feitas por pessoas e pessoas têm pontos de vista e interesses diferentes. E as organizações também. Mas o que parece é que existe uma tentativa velada de omitir esses partidarismos. Isso acontece mais nitidamente nas TVs, mas até as revistas, jornais e blogs parecem não querer entrar nesse mérito. O problema é que essa omissão é um dos grandes motivos que torna as pessoas cada vez mais alienadas (palavra desgastada, mas elucidativa). Isso é proposital, pra não dizer histórico, evidentemente, mas é preciso combater essa hipocrisia que existe nos meios de comunicação, porque, até para nós, que procuramos não sermos alienados, ficamos reféns de situações que fazem nos sentir como verdadeiros idiotas.

Nesse exemplo da semana passada, a revista VEJA nitidamente atacou Lula de novo, desta vez usando como artifício supostas declarações de um homem já condenado pela Justiça pelos crimes de desvio de recursos públicos (corrupção ativa e peculato) e lavagem de dinheiro, faltando ainda ser julgado por evasão de divisas e formação de quadrilha. O que impressiona na reportagem (inclusive em outras edições) é que, mesmo com as condenações, ele seja colocado como um "salvador da pátria" nesse episódio do Mensalão. Mas algumas coisas interessantes começaram a acontecer na semana.

A reportagem, como era de se esperar, causou muita euforia na imprensa, que logo foi atrás do advogado de Valério, Marcelo Leonardo, para saber mais detalhes sobre as supostas declarações. Também a oposição, de forma nada surpreendente, entrou na euforia da imprensa, querendo que Lula também fosse julgado. Mas tudo isso foi muito mais breve do que eles imaginavam, porque logo o advogado de Valério negou tudo. Disse para O Globo que "desde 2005 Marcos Valério não dá entrevistas e não deu nenhuma entrevista para a Revista VEJA agora". E também que "ele nega o teor das declarações atribuídas a ele".

O advogado de José Dirceu, José Luís Oliveira Lima, deu a seguinte declaração sobre o caso na mesma reportagem de O Globo:

- Acho muito estranho que na véspera de iniciar o julgamento contra o meu cliente, e também na véspera do primeiro turno (das eleições), a revista venha com uma matéria desprovida de fatos concretos, de provas e documentos — afirmou o advogado, que minimizou a hipótese de o artigo influenciar no julgamento. — Fico tranquilo quando lembro que meu cliente está sendo julgado pelo STF, composto pelos magistrados mais experientes do país, portanto vacinados para qualquer tipo de pressão.

Bom, os ministros realmente ignoraram as supostas acusações contra Lula. 

A VEJA declarou primeiramente que não houve entrevista com Valério e que, na verdade, a reportagem estava embasada em declarações de parentes e amigos (talvez esse tenha sido o estopim da possível separação de Valério e sua esposa, Renilda). No entanto, voltaram atrás e disseram que havia sim uma entrevista com Marcos Valério, gravada inclusive. Então, várias pessoas começaram a pressionar a VEJA para soltar a tal fita com a gravação das declarações de Marcos Valério sobre Lula para atestar a informação, sugestão vinda também de José Serra. O jornalista Ricardo Noblat chegou a divulgar em seu Twitter que a VEJA iria divulgar a fita. 

Mas logo, veio a notícia: a VEJA decidiu não divulgar a tal fita com a entrevista, numa decisão que causou revolta até em seus correligionários. 

O que fica para nós, reles leitores e consumidores de notícias, é que estamos reféns delas e de seus meios. E a grande maioria das pessoas ainda é obrigada a acreditar que os meios de comunicação são apartidários. Esse é um dos maiores mitos que somos obrigados a engolir. A verdade é que a imprensa deveria cumprir sua real função social, que é simplesmente a de informar fatos reais. Infelizmente, a função social da imprensa tem sido a de ser comercial e a atender interesses estranhos à maioria. Se for assim, que seja, mas um pouco de honestidade não faz mal a ninguém. Ora, por isso que dizer que existe uma tentativa dos meios de comunicação serem suprapartidários, é aceitável. Mas tentar passar a imagem de serem apartidários, é fazer o leitor de idiota.