quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

De "negra, pobre e favelada" a exemplo de mulher de luta

A Revista Veja a acusou de ter sido eleita tantas vezes só por causa do slogan “negra, pobre e favelada”. Um equívoco proposital da revista. Afinal de contas, isso não é mero um slogan. É uma realidade da mulher negra e de origem pobre das favelas cariocas: Benedita Sousa da Silva Sampaio, a Benedita da Silva.

Benedita nasceu no dia 11 de março de 1942 na favela da Praia do Pinto e, logo recém-nascida, mudou-se para o morro Chapéu da Mangueira. Muito pobre, em meio a 14 irmãos, precisava trabalhar para ajudar no sustento da família. Também sofreu tanto com a discriminação por ser negra e pobre que chegou a se odiar. Ela mesma conta que chegou a “tomar banho se raspando com telhas” e até “a colocar um pouco de água sanitária no banho para clarear a pele”. Também cresceu ouvindo que “ela precisava casar com branco para limpar a família”. Até que então, certa vez, uma menina branca, filha de uma de suas patroas, deitou-se ao lado dela. Aquela atitude simples Benedita descreveu como “mágica” (já que nem podia ir ao balanço do parquinho com outras crianças por ser pobre e negra) e finalmente sentiu “aquela coisa de igualdade”, que a despertou para as questões raciais. E concluiu: “Não! Eu vou à luta!”.


Na época da ditadura militar, Benedita e outras mulheres da comunidade se juntaram e criaram um departamento feminino na Associação dos Moradores do Chapéu Mangueira. Elas lutavam por melhores condições de vida na favela e questionavam as ações da polícia na comunidade. Aquela associação se articulou com o Centro da Mulher Brasileira, junto com mulheres da classe média do Rio de Janeiro.


Aos 40 anos de idade, formou-seem Serviço Social. Apartir daí, Benedita passaria a entrar para um rol de destaque raro entre mulheres negras na política. Em 1982, foi eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro pelo PT, a primeira negra a ocupar aquele cargo. Em 1986 foi eleita deputada federal, atuando como titular da Subcomissão dos Negros, das Populações Indígenas e das Minorias na Assembléia Nacional Constituinte, posteriormente passando à Comissão de Ordem Social e da Comissão de Direitos e Garantias do Homem e da Mulher. Em 1992, foi candidata à prefeitura do Rio de Janeiro. Ganhou no 1º turno, mas perdeu o 2º para César Maia, do PMDB. No entanto, em 1994, Benedita foi eleita a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado. Assumiu o cargo de vice-governadora do Rio de Janeiro na chapa de Anthony Garotinho em 1998. Com a renúncia de Garotinho em 2002 para disputar a presidência, Benedita da Silva tornou-se a primeira mulher, não somente negra, a ocupar o governo do estado, mas a única mulher negra a assumir esse tipo de cargo no Brasil. Também assumiu a Secretaria Especial da Assistência e Promoção Social, com status de Ministério, no governo Lula em 2003 e a Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos no governo de Sérgio Cabral Filho em 2007. Atualmente, Benedita é deputada federal pelo Rio de Janeiro.


Apesar de todas as dificuldades, Benedita foi muito atuante na temática racial e das mulheres. Durante a reforma da Constituição, lutou para “inserir emendas ao texto constitucional sobre inafiançabilidade de crimes raciais, licença de 120 dias à gestante, direito das presidiárias de amamentar seus filhos, direitos das trabalhadoras domésticas, titulação das terras de quilombos, entre outras proposições”. Foi autora de importantes 84 projetos de lei como deputada federal. Como senadora, propôs “introdução do ensino da história da África no currículo escolar, demarcação das terras dos antigos quilombos, quotas de participação da imagem do negro nos meios de comunicação”, entre outros. É dela o projeto de lei que inscreveu Zumbi dos Palmares no panteão dos heróis nacionais, fazendo com que o dia 20 de novembro se tornasse o “Dia Nacional da Consciência Negra”.

  
Por tudo isso e muito mais, é injustificável atribuir a um mero slogan aos sucessivos êxitos de Benedita da Silva na carreira política. Mesmo sendo uma minoria, e, infelizmente, muitas vezes uma exceção, ela soube representar bem a grande maioria das mulheres brasileiras e suas realidades. Somente uma mulher como ela poderia ter a sensibilidade para compreender e lutar pelos direitos de quem passa despercebida por esses legisladores e “representantes do povo”, sem mencionar que isso acontece porque muitos são machistas, racistas e/ou elitizados. Para os mais críticos, as ações dela podem parecer insuficientes. E naturalmente são, porque a quantidade de mulheres com a mesma origem atuando nos legislativos também é insuficiente. Ora, Benedita precisou de pouca coisa para acreditar que ela tinha reais condições para lutar por justiça social. Mas hoje, podemos nos sentir privilegiadas por termos este exemplo vivo de motivação, no sentido de que qualquer uma de nós pode chegar aonde ela chegou e até fazer ainda mais, se quisermos. Quem é que não tem esse sonho como o dela? “Sonho com uma sociedade diferente, com justiça”.


Referências:


CÂMARA DOS DEPUTADOS. Biografia: Benedita da Silva. Disponível em:http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=103478. Acesso em 05/03/2012.


SEM FRONTEIRAS. Entrevista: Benedita da Silva. Disponível em:http://ospiti.peacelink.it/zumbi/news/semfro/sf234p05.html. Acesso em 05/03/2012.




CRIOLA. Negras da História: Benedita da Silva. Disponível em:http://www.criola.org.br/nnh/nnh_benedita_da_silva.htm. Acesso em 05/03/2012.


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