A Revista Veja a acusou de ter sido eleita
tantas vezes só por causa do slogan “negra, pobre e favelada”. Um equívoco
proposital da revista. Afinal de contas, isso não é mero um slogan. É uma
realidade da mulher negra e de origem pobre das favelas cariocas: Benedita
Sousa da Silva Sampaio, a Benedita da Silva.
Benedita nasceu no dia 11 de março de 1942 na favela da Praia do
Pinto e, logo recém-nascida, mudou-se para o morro Chapéu da Mangueira. Muito
pobre, em meio a 14 irmãos, precisava trabalhar para ajudar no sustento da
família. Também sofreu tanto com a discriminação por ser negra e pobre que
chegou a se odiar. Ela mesma conta que chegou a “tomar banho se raspando com
telhas” e até “a colocar um pouco de água sanitária no banho para clarear a
pele”. Também cresceu ouvindo que “ela precisava casar com branco para limpar a
família”. Até que então, certa vez, uma menina branca, filha de uma de suas
patroas, deitou-se ao lado dela. Aquela atitude simples Benedita descreveu como
“mágica” (já que nem podia ir ao balanço do parquinho com outras crianças por
ser pobre e negra) e finalmente sentiu “aquela coisa de igualdade”, que a
despertou para as questões raciais. E concluiu: “Não! Eu vou à luta!”.
Na época da ditadura militar, Benedita e outras mulheres da
comunidade se juntaram e criaram um departamento feminino na Associação dos
Moradores do Chapéu Mangueira. Elas lutavam por melhores condições de vida na
favela e questionavam as ações da polícia na comunidade. Aquela associação se
articulou com o Centro da Mulher Brasileira, junto com mulheres da classe média
do Rio de Janeiro.
Aos 40 anos de idade, formou-seem Serviço Social. Apartir daí,
Benedita passaria a entrar para um rol de destaque raro entre mulheres negras
na política. Em 1982, foi eleita vereadora da cidade do Rio de Janeiro pelo PT,
a primeira negra a ocupar aquele cargo. Em 1986 foi eleita deputada federal,
atuando como titular da Subcomissão dos Negros, das Populações Indígenas e das
Minorias na Assembléia Nacional Constituinte, posteriormente passando à
Comissão de Ordem Social e da Comissão de Direitos e Garantias do Homem e da
Mulher. Em 1992, foi candidata à prefeitura do Rio de Janeiro. Ganhou no 1º
turno, mas perdeu o 2º para César Maia, do PMDB. No entanto, em 1994, Benedita
foi eleita a primeira mulher negra a ocupar uma vaga no Senado. Assumiu o cargo
de vice-governadora do Rio de Janeiro na chapa de Anthony Garotinho em 1998.
Com a renúncia de Garotinho em 2002 para disputar a presidência, Benedita da
Silva tornou-se a primeira mulher, não somente negra, a ocupar o governo do
estado, mas a única mulher negra a assumir esse tipo de cargo no Brasil. Também
assumiu a Secretaria Especial da Assistência e Promoção Social, com status de
Ministério, no governo Lula em 2003 e a Secretaria de Estado de Assistência
Social e Direitos Humanos no governo de Sérgio Cabral Filho em 2007.
Atualmente, Benedita é deputada federal pelo Rio de Janeiro.
Apesar de todas as dificuldades, Benedita foi muito atuante na
temática racial e das mulheres. Durante a reforma da Constituição, lutou para
“inserir emendas ao texto constitucional sobre inafiançabilidade de crimes
raciais, licença de 120 dias à gestante, direito das presidiárias de amamentar
seus filhos, direitos das trabalhadoras domésticas, titulação das terras de
quilombos, entre outras proposições”. Foi autora de importantes 84 projetos de
lei como deputada federal. Como senadora, propôs “introdução do ensino da
história da África no currículo escolar, demarcação das terras dos antigos
quilombos, quotas de participação da imagem do negro nos meios de comunicação”,
entre outros. É dela o projeto de lei que inscreveu Zumbi dos Palmares no
panteão dos heróis nacionais, fazendo com que o dia 20 de novembro se tornasse
o “Dia Nacional da Consciência Negra”.
Por tudo isso e muito mais, é injustificável atribuir a um mero
slogan aos sucessivos êxitos de Benedita da Silva na carreira política. Mesmo
sendo uma minoria, e, infelizmente, muitas vezes uma exceção, ela soube
representar bem a grande maioria das mulheres brasileiras e suas realidades.
Somente uma mulher como ela poderia ter a sensibilidade para compreender e
lutar pelos direitos de quem passa despercebida por esses legisladores e
“representantes do povo”, sem mencionar que isso acontece porque muitos são
machistas, racistas e/ou elitizados. Para os mais críticos, as ações dela podem
parecer insuficientes. E naturalmente são, porque a quantidade de mulheres com
a mesma origem atuando nos legislativos também é insuficiente. Ora, Benedita
precisou de pouca coisa para acreditar que ela tinha reais condições para lutar
por justiça social. Mas hoje, podemos nos sentir privilegiadas por termos este
exemplo vivo de motivação, no sentido de que qualquer uma de nós pode chegar
aonde ela chegou e até fazer ainda mais, se quisermos. Quem é que não tem esse
sonho como o dela? “Sonho com uma sociedade diferente, com justiça”.
Referências:
CÂMARA DOS DEPUTADOS. Biografia: Benedita da Silva. Disponível em:http://www2.camara.gov.br/deputados/pesquisa/layouts_deputados_biografia?pk=103478.
Acesso em 05/03/2012.
SEM FRONTEIRAS. Entrevista: Benedita da Silva. Disponível em:http://ospiti.peacelink.it/zumbi/news/semfro/sf234p05.html.
Acesso em 05/03/2012.
PT NA CÂMARA. Benedita da Silva (RJ). Disponível em:http://www.ptnacamara.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=5967:benedita-da-silva-rj&catid=48&Itemid=117.
Acesso em 05/03/2012.
CRIOLA. Negras da História: Benedita da
Silva. Disponível em:http://www.criola.org.br/nnh/nnh_benedita_da_silva.htm.
Acesso em 05/03/2012.
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Como ainda existe uma séria tentativa à liberdade de expressão ao responsabilizar o blogueiro por comentários ao post, eles serão moderados. Eu também acho um absurdo isso!